Como a informação pode virar conhecimento



Alguns gurus de administração costumam contar a seus interlocutores a história de um fabricante de calçados que pretendia expandir suas atividades e enviou um de seus melhores vendedores a um país vizinho, a fim de realizar a prospecção do novo mercado. Uma semana depois, o funcionário volta com o veredicto: "Chefe, é melhor desistir do projeto. A maioria das pessoas daquele país prefere andar descalça. Dificilmente conseguiremos ter um volume de vendas que justifique a instalação de uma de nossas indústrias".




Como não ficara totalmente convencido de que seu projeto de expansão tinha ido para a Cucuia, o empresário decidiu enviar outro vendedor ao mesmo país vizinho, sem dizer-lhe o que ouvira do outro subordinado. Desta vez, a avaliação foi esta: "Chefe, temos um imenso mercado a explorar. Quase ninguém usa sapato naquele lugar. Imagine quantos pares poderemos vender se montarmos uma fábrica lá?".




A fábula corporativa pode ser empregada igualmente no setor de mídia impressa, mais especificamente no segmento de jornais. De acordo com o Instituto Verificador de Circulação (IVC), a tiragem dos periódicos filiados à entidade cresceu 11,8% em 2007, atingindo 4.144.149 exemplares por dia. O aumento foi cerca de 80% superior à alta de 6,5% em 2006, quando a média de circulação diária era de 3.705.849 exemplares. No ano passado, a expansão foi de 5%. O Brasil alcançou média diária de 4.351.400 cópias.




Para um país com 190 milhões de habitantes, isso significa que pouco mais de 2% da população cultiva o hábito de ler jornal, um número reles, ainda mais se as empresas jornalísticas levarem em conta em seus planos de negócios as últimas provas de desempenho em língua portuguesa dos estudantes brasileiros.




No entanto, o baixo índice de leitura de jornais pode nos remeter à avaliação do segundo vendedor de sapatos do exemplo de motivação organizacional do começo deste texto. O funcionário encarou a grande quantidade de pessoas de pés descalços como uma enorme chance de aumentar os negócios de sua empresa. Algo parecido com o que as nações industrializadas parecem ter descoberto só recentemente: as economias do Primeiro Mundo já estão relativamente saturadas, enquanto a dos países emergentes ainda têm um mundo para ser satisfeitas.




Há um contingente imenso de pessoas que potencialmente podem ser transformadas em leitoras de jornal. Nos últimos anos, houve uma conjuntura econômica favorável para ampliar a circulação de jornais. Com um pouco mais de dinheiro no bolso, o brasileiro topa pagar para manter-se atualizado com as notícias. Neste ano, entretanto, a crise financeira mundial já abalou os níveis de emprego e reduziu a disposição dos consumidores de gastar seu dinheiro - o que também traz como risco a diminuição da publicidade nos meios de comunicação como um todo.




Mudanças gráficas, novos cadernos e campanhas para atrair um número maior de leitores integram aquele conjunto de planos que deve fazer parte da preocupação cotidiana de um jornal. Mas há uma necessidade mais profunda, tanto para os jornais quanto para o próprio País: cativar os não leitores, aqueles que quase não conseguem ler por serem semianalfabetos.




Tome-se o exemplo do Estado de São Paulo, onde existem 5,5 mil escolas públicas (incluindo as rurais), nas quais trabalham 300 mil servidores e estudam 5,5 milhões de alunos. Grande parte dessas instituições funciona precariamente, sobretudo as instaladas na periferia das grandes cidades. Empresas jornalísticas e anunciantes poderiam unir-se para oferecer aos estudantes e ao corpo docente projetos de apoio pedagógico que incluam a leitura de jornais e o acesso digital aos arquivos dessas publicações. Infelizmente, as iniciativas nesse sentido têm sido pífias.




A história do Brasil e do mundo é contada diariamente nos jornais. As informações que imprimem podem transformar-se em conhecimento. Seus textos são úteis em praticamente todas as disciplinas. Além de contribuir para que o País tenha cidadãos mais esclarecidos de seus direitos e deveres, os jornais certamente ganhariam uma boa quantidade de adeptos, mesmo entre aqueles mais antenados com tecnologias de acesso sem fio e com boa portabilidade, dois atributos que esses periódicos possuem desde que foram inventados.




kicker: A história do mundo é contada diariamentenos jornais




COSTÁBILE NICOLETTA* - Editor-executivoE-mail: costabile@gazetamercantil.com.br)






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One Response to “Como a informação pode virar conhecimento”

Ivan disse...

Sinta-se a vontade para colocar no seu blog a charge, fico feliz que tenha gostado.

É muito informativo seu blog.

Parabéns !